
O forrozeiro Pedro Nogueira e Danilo, vocalista do trio Dona Zefa: Gonzaga tatuado no braço (Divulgação)
Essa é para Macca, como é conhecido o ex-beatle Paul McCartney, morrer de inveja. Muito antes que fãs brasileiras lhe pedissem autógrafos no corpo com o plano de tatuá-los, um outro ídolo da música, de uma cidade bem distante de Liverpool, ganhou o braço de um fã. Foi Luiz Gonzaga, o rei do baião. A marca corporal foi uma maneira de o produtor musical Pedro Nogueira, 32, provar o seu amor pelo ritmo. Mas há outros modos. Além de viajar quilômetros e quilômetros para marcar presença em shows, os amantes do ritmo assumem padrões de comportamento particulares. Compartilham códigos internos, palavras, vestuário e até bebidas como Xiboquinha, Jurupinga e Catuaba. Confira abaixo algumas histórias de veneradores de Gonzagão.

Alexandre Mori, 32, pesquisador e produtor musical de Araraquara (SP)
Começou a frequentar o forró em 2000, ainda na onda universitária, e não parou mais. Organizava caravanas para cidades onde havia mais shows. “Até hoje, não consigo ficar um fim de semana sem ir ao forró”, conta. Já viajou para Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Brasília para ouvir o ritmo e montou uma coleção de 250 discos de vinil. De tanto se dedicar ao gênero, Alexandre viu sua vida tomada por ele e resolveu trabalhar com isso. Virou produtor de eventos e bandas e tem um programa de rádio ligado ao estilo. “Acho que devoto 80% da minha vida pessoal e profissional ao forró”, conta o jovem que leva na perna, tatuados, um triângulo, uma sanfona e uma zabumba.

Reginaldo Nogueira, 29, analista de sistemas de Belo Horizonte (MG)
É forrozeiro há 13 anos, desde que se encantou pelo forró universitário e passou a treinar em casa os passos que aprendia nas baladas. Tornou-se pé-de-valsa e hoje é difícil vê-lo parado na pista: é disputado pelas meninas. Mesmo nas férias, não há descanso: Reginaldo viaja para dançar. “Minha vida só não é mais dedicada ao forró porque ainda não ganhei na loteria nem recebo Bolsa Forró”, brinca. “Essa paixão é quase inexplicável. O forró é uma terapia, ajuda a aliviar o estresse das grandes capitais e ainda serve de exercício físico pesado, eu já emagreci vários quilos”.

Carlos Eduardo Caddah, 25, publicitário e DJ, de Brasília (DF)
Foi ao forró pela primeira vez há quatro anos para tirar fotos para um site de eventos. Largou a câmera e começou a dançar. Durante um tempo, ia para os shows de segunda a segunda-feira. Depois que começou a namorar, diminuiu o ritmo, mas continuou ligado ao estilo. É o DJ oficial de duas casas de forró pé-de-serra de Brasília e já fez duas tatuagens dedicadas ao estilo – uma com o desenho de um trio e outra com as palavras “Pé de Serra”, que exibe com orgulho. “O forró é minha família, é lá que esqueço dos meus problemas, ele me ajuda a viver”, declara.

Bruna Montrazi, 24, publicitária, São Paulo (SP)
Apesar de ouvir o Falamansa desde o início, Bruna nunca chegou a ser frequentadora dos shows do grupo e não tinha a menor curiosidade de conhecer o tal pé-de-serra de perto. Até ser levada pela primeira vez ao Remelexo, tradicional casa paulistana, há sete meses. “Gostei tanto que passei a vir três vezes por semana. Quando vi, já estava viciada, vinha sozinha, embaixo de chuva, sob os protestos dos meus pais”, lembra a publicitária, que hoje ouve forró quando dirige e enquanto trabalha. “Tem dia que vou só para conversar e ver o show. É praticamente uma droga boa que entrou na minha veia.”

Pedro Nogueira, 32, produtor musical, Rio de Janeiro (RJ)
Mesmo ouvindo músicas do Nordeste quando criança, Pedro demorou para se entregar ao ritmo. Até que, há 13 anos, numa viagem com amigos ao Espírito Santo, se “descobriu” ao observar uma cena. “Quando vi um menino de 10 anos dançando com a garota mais interessante do lugar, ao som do forró pé-de-serra, decidi que era aquele tipo de sentimento de bem estar que gostaria de ter dali em diante.” Já apaixonado pelo ritmo, Pedro decidiu “se filiar de coração”. Criou um site de notícias sobre o assunto, passou a produzir eventos e bandas e hoje é jurado do Festival de Itaúnas. “Faço dessa aposta profissional uma cachaça. Meu prazer não está em ganhar ou perder e sim em continuar levando essa vida simples, alegre e livre”, justifica. Em 2002, resolveu marcar no próprio corpo a descoberta do que lhe fazia bem: tatuou no braço o rosto de Luiz Gonzaga.

Rakisley Moura, 23, ex-técnico em informática, produtor de forró, Curitiba (PR)
Kiko, como prefere ser chamado, é um desses forrozeiros que causam admiração de tão apaixonados que são pelo estilo. “Eu respiro, como e durmo forró, toda a minha vida é dedicada a ele”, afirma. O vício vem de família: os pais nordestinos ouvem o ritmo há décadas. Juntos, pai e filho criaram o Forroots, projeto que pesquisa e divulga o pé-de-serra. Kiko ainda mantém uma rádio online só de forró. Há dois meses, ele se demitiu de um emprego estável para se dedicar exclusivamente à paixão. “Escuto forró todos os dias e todas as horas. Todos os meus momentos estão ligados a ele de alguma forma, daqueles vividos em família àqueles com as ex-namoradas.”

Jiordano Pasqualini, 27, estudante e produtor de eventos, na Alemanha há oito anos
Desde os 16 anos, quando vivia em São Paulo, Jiordano frequentava o forró, mas foi do outro lado do mundo que ele expressou de verdade sua paixão pelo ritmo. Quando chegou à Alemanha para estudar, em 2002, viu que o Brasil por lá só era representado pelo axé e pelo funk. “Como não podia ficar sem forró, comecei a ensinar uns amigos a dançar. Fiz festas, dei aulas e, quando vi que o forró já havia se tornado familiar para um número razoável de pessoas, criei um evento chamado Forró de Domingo”, conta. O bailão, que acontece a cada quinze dias em Stuttgart, reúne brasileiros e europeus amantes do dois-pra-lá-dois-pra-cá. No meio do ano, Jiordano ainda promove um festival nos moldes de Itaúnas. “Os europeus se sentem acolhidos no forró.”
Fonte: Veja